
As parasitoses estão entre as principais causas de perdas econômicas em bovinos no mundo, com destaque para as helmintoses gastrintestinais e pulmonares, doenças da produção que acarretam perdas por causa da morbidade, mortalidade, custos com profilaxia e/ou tratamento e diminuição da produtividade em interação com estresse nutricional, ambiente, manejo e outros aspectos sanitários (LIMA, 2004).
O desenvolvimento de drogas pouco tóxicas, de amplo espectro de ação, grande eficácia e poder residual permitiu aos criadores uma ferramenta prática e adaptável aos diferentes sistemas de produção, criando um falso sentido de segurança, que substituiu a atividade do médico veterinário, como consultor em sanidade animal, e o próprio diagnóstico, pelo uso quase exclusivo de quimioterápicos e/ou manejo de pastagens para o controle parasitário, colocando em risco o sucesso desses programas (FAO, 2003).
A resistência parasitária aos produtos químicos é um grande problema para o qual ainda não se vislumbra uma solução e com perspectivas não muito animadoras (Quadro 1). Tecnicamente considera-se a probabilidade de resistência quando a eficácia de uma droga falha em alcançar 95% (PRICHARD et al.,1980). Esse é um fenômeno esperado quando se usa uma determinada droga, pois inicia-se um processo de seleção dentro da população-alvo, ou seja, os parasitos que sobrevivem aos produtos antiparasitários transmitem essa capacidade para seus descendentes. O processo é gradativo e deve ser diagnosticado precocemente para prevenir prejuízos decorrentes da doença sub clínica ou mesmo a ocorrência de sintomatologia clínica nos rebanhos.
Estádios de vida livre e parasitários não afetados por tratamentos quimioterápicos são descritos como refugia, ou seja, esses indivíduos escapam à exposição e consequentemente, à seleção por de- terminado agente químico. Quando 30% a 75% dos nematoides encontram-se em refúgio, o desenvolvimento de resistência é significativamente retardado (ECHEVARRIA, 1996).
Alguns sintomas clínicos como diarreia, anemia e perda de condição corporal associados com o parasitismo gastrintestinal podem não significar casos de resistência por não serem específicos. Isso ocorre geralmente devido à presença de agentes infecciosos, nutrição deficiente, deficiência de elementos minerais e intoxicações por plantas. Outros fatores que contribuem para uma aparente falha de tratamento anti-helmíntico incluem a rápida reinfecção por causa das pastagens altamente contaminadas, presença de larvas hipobióticas ou em estádio de desenvolvimento que não são atingidas pelo quimioterápico, utilização de equipamento de aplicação defeituoso, subdosagem e/ou escolha de medica- mento inadequado para o parasito que se deseja controlar (VIEIRA, 2003).
MECANISMO DE AÇÃO DOS PRINCIPAIS ANTIPARASITÁRIOS E FORMAS DE RESISTÊNCIA
Benzimidazóis
Os Benzimidazóis (fenbendazole, albendazo- le, oxfendazole) desempenham sua função ligando- se com alta afinidade a receptores na tubulina. A resistência, nesse caso, é causada pela seleção de alelos específicos de β-tubulina em nematódeos. Entretanto, transportadores ABC como as glicopro- teinas-P, também podem modular a resistência em benzimidazóis.
Imidazotiazóis
Os Imidazotiazóis (levamisol, morantel e piran- tel) atuam em canais de cátions mediados pela acetilcolina. Pouco se conhece sobre o mecanismo de resistência aos imidazotiazóis, embora mudanças em receptores nicotínicos possam estar envolvidas na resistência a essas drogas.
Lactonas macrocíclicas
As Lactonas macrocíclicas (ivermectina, dora- mectina, abamectina) promovem a abertura de forma irreversível, dos canais de cloro mediados por substâncias ligantes (LGIC) como o glutamato e/ou o áci- do γ-amino butírico. Embora uma baixa resposta dos canais de cloro possa estar envolvida com a resistência, a maior evidência disso está relacionada com a seleção genética em transportadores ABC, como as glicoproteínas-P, bem como em β-tubulina.
CLASSIFICAÇÃO DA RESISTÊNCIA
Quando uma cepa selecionada por uma droga mostra-se resistente a outras drogas com mecanismo de ação similar, diz que a resistência é lateral. Quando a população é capaz de resistir ao efeito de fármacos com diferentes mecanismos de ação, a resistência é cruzada. E quando existem indivíduos resistentes a dois ou mais grupos de anti-helmínticos quimicamente diferentes e com mecanismos de ação diferentes, diz que a resistência é múltipla ou cruzada inespecífica (MOTTIER; LANUSSE, 2001).
ETAPAS DA RESISTÊNCIA
O aparecimento de estirpes de parasitos resis tentes a fármacos pode ser explicado pela teoria da evolução, em que a população original de parasitos continha raros indivíduos com capacidade de sobre- viver ao tratamento, e como a droga mata todos os sensíveis, a geração seguinte constituirá da progênie daqueles poucos parasitos resistentes ao tratamento (ECHEVARRIA, 1996).
Estabelecimento
Alterações bioquímicas e/ou moleculares que afetam a capacidade de acúmulo intracelular de drogas, alterações enzimáticas e/ou de receptores celulares e variações no metabolismo celular são algumas das mudanças genéticas transmitidas de geração em geração. O tamanho e a diversidade da população e a taxa de mutação gênica influenciam o estabeleci- mento da resistência (MOTTIER; LANUSSE, 2001).
Desenvolvimento
Fatores operacionais como dosagens, eficiência e mecanismo de ação dos anti-helmínticos, intervalos de dosificações, rotação de bases e manejo de campo, confere resistência aos parasitos frente aos fármacos. Isso possibilita a amplificação da frequência gênica de cepas parasitárias resistentes, traduzindo-se num estado de não susceptibilidade ou redução de sensibilidade ao efeito das drogas que, em condições normais, causariam inibição de seu crescimento ou a morte celular (BARNES; DOBSON, 1990).
Dispersão
