Um grupo de pesquisadores do Brasil e da Espanha quer gerar conhecimentos que ajudem a entender como aconteceram a formação e evolução da Terra Preta de Índio (TPI). Para alcançar este objetivo e compreender as transformações que ocorreram neste tipo de solo no passado, os cientistas que integram o trabalho utilizam uma prática ainda pouco difundida no Brasil: a análise de fitólitos preservados em arquivos terrestres.
Os fitólitos são corpos minúsculos de opala silicosa que se formam nos tecidos de algumas plantas, com funções que podem ser de sustentação, defesa e desintoxicação, por exemplo. Após a morte dos vegetais ou de parte deles, os fitólitos são incorporados ao solo. Devido à grande resistência que apresentam, estes registros fósseis são uma importante ferramenta de interpretação em estudos que buscam reconstruir as trajetórias históricas das mudanças climáticas e de gênese de solos, e podem oferecer a possibilidade de compreensão da natureza e extensão do impacto da ação humana sobre os ecossistemas.
Em síntese, a partir da análise destes fitólitos, é possível desvendar pelo menos parte da vegetação que compôs um determinado local, oferecendo elementos que ajudem a compreender um contexto mais amplo da área. O projeto tem o foco voltado à região Neotropical brasileira e busca estabelecer uma metodologia sólida para a reconstrução de ambientes pretéritos. “Os fitólitos, que se preservam bem em solos e em palaeosolos, têm sido utilizados com sucesso para reconstruir o clima e a vegetação do passado em regiões tropicais. Porém, são poucos os trabalhos realizados em zona Neotropical e menos ainda no Brasil”, destacou Marcia Calegari, uma das pesquisadoras que integra o projeto e especialista em análise de fitólitos no Brasil.
O estudo, que tem duração de três anos (2014 a 2016), pode ser considerado um dos marcos iniciais para o conhecimento da produção de fitólitos da flora brasileira, até então praticamente sem referências no Brasil. O estudo também pode ser um importante subsídio futuro para trabalhos que já vêm sendo desenvolvidos no país e que necessitam de informações desconhecidas sobre os diferentes ecossistemas brasileiros, e ainda pode orientar gestores políticos na tomada de decisão de como melhor gerir os biomas nacionais.
O nome do projeto em português é “Identificação e discriminação de ecossistemas de floresta/savana do Brasil com base em assembleias de fitólitos e índices para entender a vegetação pretérita e a gênese de solos”, aprovado junto à Capes. Este projeto faz parte do Programa Pesquisador Visitante Especial, por meio do qual o especialista em análises de fitólitos, o professor Marco Madella, da Universidade Pompeu Fabra de Barcelona (Espanha), estará no Brasil à frente das pesquisas, juntamente com Marcia Calegari. Além da Terra Preta de Índio e da Floresta Primária da Amazônia, o trabalho vai abranger áreas em São Paulo e Espírito Santo. A área de TPI analisada está localizada em Iranduba (AM), no Campo Experimental do Caldeirão, pertencente à Embrapa Amazônia Ocidental – Unidade da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, vinculada ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Também foram realizadas coletas em áreas de Mata Primária de Terra Firme no município de Iranduba, que servirão como referência da vegetação natural.
Compõem o grupo nesta etapa de campo os pesquisadores Marco Madella e Carla Lancelloti (ambos da Universidade Pompeu Fabra – Barcelona, Espanha), Marcia Calegari (Universidade Estadual do Oeste do Paraná – Campus Marechal Cândido Rondon), Taís Santos e Rodrigo Macedo (mestranda e pós-doutorando, ambos da Esalq/USP). O projeto é coordenado junto à Capes pelo professor Pablo Vidal-Torrado, da Esalq/USP. O trabalho no Amazonas visa dar continuidade às pesquisas de gênese e formas de uso da TPI por meio da análise de fitólitos, iniciadas pelo pesquisador Rodrigo Macedo em sua tese de doutorado intitulada “Pedogênese e indicadores pedoarqueológicos em Terra Preta de Índio no município de Iranduba – AM”, que contou com a colaboração da Embrapa, através dos pesquisadores Wenceslau Teixeira e Gilvan Coimbra Martins.
Terra Preta de Índio
A Terra Preta de Índio – manchas de solo escuro encontradas na Bacia Amazônica e que podem variar de pequenas áreas, de cerca de um hectare, até extensões com mais de cem hectares – tem sua origem relacionada a povos ancestrais pré-colombianos que habitaram a região. Os solos apresentam grande acúmulo de matéria orgânica e fertilidade, e são caracterizados pela ampla disponibilidade de nutrientes como cálcio, magnésio, zinco, manganês, fósforo e carbono, fazendo um contraponto à maioria dos solos da região amazônica, que possui coloração amarelada, baixa fertilidade e acidez, condições desfavoráveis à agricultura. Devido a estas características, a TPI é considerada um patrimônio histórico, que tem despertado a curiosidade da ciência internacional, interessada em tentar descobrir como se deu a sua constituição.
A Embrapa, juntamente com outras instituições, busca conhecer melhor as características físicas e químicas da Terra Preta de Índio, assim como seu processo de formação e evolução. Um dos objetivos deste esforço é tentar reproduzir estas particularidades, especialmente as relacionadas à fertilidade, como forma de usar as informações no âmbito da agricultura. Em Iranduba (AM), município vizinho a Manaus, a empresa mantém o Campo Experimental do Caldeirão, que possui três parcelas com área total de 23 hectares de TPI.