A realidade da cidade

Somente com uma organização comunitária consolidada possibilita manter relações leais com um desenvolvimento em escala humana fidelizado com o bem estar e a qualidade de vida

Afonso Peche Filho, pesquisador científico do Instituto Agronômico de Campinas
Política

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Em nossa casa, fora do alcance dos olhos, cresce a cidade dos outros. Sonhando com uma boa governança entregamos aos bons políticos o destino coletivo. Como a vida é boa e tem que ser vivida, fazemos o papel de "bons consumidores" ampliando a galope a distancia que separa ricos e pobres. O poder da individualidade familiar resulta numa dívida impossível de pagar com o futuro. O resultado é um ambiente hostil para todos que enfrentam ou que fogem.

Iniciamos em séculos passados uma educação para a riqueza, para o pró-econômico, e para o anti-humano. Formamos guetos, extremos, quadrilhas promovendo o desenvolvimento da cidade. Aqueles que detêm conhecimento, omitem; encaram o social de acordo com suas conveniências e necessidades. Nunca, antes tivemos tanto silêncio, apesar de várias manifestações o canto coletivo ainda não ecoou. Silêncio que protege os políticos, governantes e gente do mal.

O momento atual é um raio de luz para hipócritas e mal intencionados, que corroboram a grande mentira que é o desenvolvimento humano em nossas cidades. A cada ano a cidade fica mais violenta, mais drogada, oprime mais os jovens, limita a mobilidade, segrega e discrimina a população humilde. Além de tudo isto os hipócritas falam de sustentabilidade e preservação ambiental. As manifestações clamam justiça contra corruptos mas silenciam diante do crescimento desordenado que avança sobre áreas ambientalmente frágeis e estratégicas, privilegiando sempre setores organizados como mercado imobiliário, construção civil, industria e comercio. A cidade cresce e possibilita mais condições para manifestação de novas versões do antigo poderio da oligarquia que controla as políticas sociais e econômicas em benefício de interesses próprios. Com o "silêncio das passeatas" os dominadores se mostram mais capazes de manipular a sociedade em qualquer lugar da cidade.

A verdade é que este modelo de construção de cidades baseado no tecnicismo do poder privado associado ao poder público não é bom. É necessário uma terceira força: a comunitária. Somente com uma organização comunitária consolidada possibilita manter relações leais com um desenvolvimento em escala humana fidelizado com o bem estar e a qualidade de vida. Alias, na verdade a cidade mostra que o único tipo efetivo de desenvolvimento que existe não é técnico é humano. O produto da cidade tem que ser cidadão desenvolvido, cada vez mais educado para a vida comunitária.